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sábado, 9 de outubro de 2010

Cafifa

Um aula sobre Cafifa, do Antonio Torres, que aproveita para fazer voar a pipa dos Cariocas.

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Um dia desses, minha filha, do alto dos seus 22 anos e das lonjuras de Toulouse, na França, onde está estudando, saiu com essa: Pai, porque você não me ensinou a soltar pipa?  Nem me lembro o que respondi ou se respondi, mas a questão ficou no ar.

Primeiro porque, morando em Niterói, ela devia ter dito cafifa e não pipa. Pipa é coisa de Carioca, mas como lá é que são geradas as mídias que nos abastecem diariamente de violência e desinformação, a cafifa dançou.

Eu nunca a ensinaria a soltar pipa. A cafifa deles, que se chama laçadeira é muito padrão, quase quadrada, com um bico pequeno embaixo e uma rabiola (hunn, rabiola...). Tem até um efeito estético legal, principalmente se há muitas no ar, mas como diversão é fraquinha. É muito menos versátil. A rabiola está sempre embolando, aliás, sua função primordial é dar equilíbrio e controle à pipa, o que se opõe por completo ao espírito rebelde e impulsivo das cafifas sem rabiola. Existencialismo puro!

O grande barato de soltar cafifa é a competição, a cruza, quando as linhas com cerol (vidro moído e cola) tentam cortar umas às outras. E não é o cerol ou a linha que faz a diferença. É o tipo da cafifa associado à técnica da cruza que dá muitas cores à brincadeira. Nós aqui em Niterói temos a arraia, morcego, pião, baratinha e o estilão, que é uma laçadeira mais esperta e a única que tem rabada e não rabiola. Cada uma delas tem suas características, seu estilo e são ágeis como o diabo. Os meninos vão se especializando em uma delas e com o tempo adquirem um domínio completo de suas manobras, obtendo ótimos resultados.

São várias técnicas usadas na cruza: Entrar por cima: Difícil e às vezes suicida, mas com um bom dibique (rápido para baixo) para dar velocidade e peso à linha, pode-se lograr sucesso. Entrar por baixo: Quem está antes do oponente em relação à direção do vento, tem tendência natural por esta entrada na cruza. O sucesso normalmente é garantido quando se consegue que a linha do oponente corra mais devagar que a sua, fazendo com que o seu desgaste seja maior. A menos, é claro, que o seu oponente, que entrou por cima, tenha outros planos.

Estão aí envolvidas questões complexas de química e física que os meninos dominam na prática, mas não tem muito tempo para aprofundar teoricamente, visto que os horários da escola, normalmente são os melhores em termos de vento e disponibilidade de tempo.

A minha infância foi preenchida em boa parte pelo universo das cafifas. Fazer, colocar no alto, cruzar, cortar, voar, dar dibique, rabilinhe, correr atrás, moer vidro, fazer e passar cerol, olhar o tempo e o vento: Uma paixão! Porquê, então, não passei essa paixão para os meus filhos? Porque nestes trinta e poucos anos que separam nossas infâncias, as coisas deixaram um pouco de serem próximas para serem tele (longe, em televisão, telefone...) e tornaram-se mais virtuais que reais. Nós até tentamos. Fizemos juntos uma cafifa, um pião, que tinha o seu nome escrito, mas quando o colocamos no alto, destreinados, deixamos que se prendesse num mamoeiro.

E ele ficou lá, balançando ao sabor do vento, aquele fevereiro inteiro.

sábado, 25 de setembro de 2010

Melinda

Este caso me contaram como verdadeiro, disseram que até no jornal saiu.


Rita estava na Rua do Matoso,  esperava impacientemente um Táxi. Os óculos escuros escondiam os sinais de choro. Em uma das mãos tinha um pequeno buquê de flores e na outra uma bolsa. No chão apoiada em suas pernas uma caixa,  destas de Tv de Plasma. Finalmente  conseguiu ser percebida por um taxista, que vendo a dificuldade  dela desceu do carro e prontamente colocou no porta malas do Santana a caixa da TV.   Rita se acomodou no banco traseiro.
-Moço vamos para Jacarepaguá.
-A Sra prefere ir pela Grajaú ou pela Linha Amarela? Perguntou o motorista.
- Tenho pressa. Qual é o caminho mais rápido:
- Certamente a Grajaú, pois a Linha Amarela esta muito lenta hoje.
- Pode ser. Falou ela como se nada mais tivesse importância e novamente as lágrimas retornaram.




Paulo Cesar logo percebeu que ela não estava bem e frequentemente a observava pelo retrovisor. Quando chegaram a Jacarepaguá ela não disse nada e ele muito esperto, começou a rodar sem também perguntar o destino correto, certo de que a corrida seria boa, ou melhor, o golpe do dia seria bom. Rita olhava pela janela abstraída por pensamentos que lhe davam um ar de tristeza profunda. De repente ela se assusta com os gritos do PC.
- Perdeu Dona, perdeu.
Eles estavam em um local ermo e desconhecido para ela.
- Deixa a bolsa no banco, sai do carro e anda sem olhar para traz.
- Preciso pegar a caixa, preciso pegar a caixa.
- Se manda Dona.
Já apontando a arma na cara dela.
Nervosa ela abriu a porta e saiu andando em direção contrária enquanto ele se afastava.

Dois  quilômetros a frente parou o carro e revistou a bolsa ficando com o pouco dinheiro, celular e os cartões, o restante jogou no matagal e fugiu em sentido a Linha Amarela onde se juntaria a centenas de outros carros e se perderia no movimento intenso. Tinha sido mais fácil do que pensava e agora ia chegar com novidades em casa para a patroa e as crianças. Um barulho de sirene o deixou assustado, mas logo viu que era uma ambulância. Isto o fez decidir ir direto para casa, afinal estava ansioso para mostrar o presente que havia "comprado". Pouco tempo depois, já em casa,  com um buquê de flores na mão ,que de forma romântica deu para a mulher e foi logo contando a novidade da compras da Tv de Plasma. Pediu uma cerveja bem gelada enquanto ia tomar um banho e mandou as crianças irem abrindo o presente.. Já debaixo do chuveiro ouviu um grito:  - pai tem um gato morto dentro da  caixa.

Longe dali Rita chegava em casa e entre soluços e choro lamentava.
Eu só queria enterrar a Melinda no  quintal casa da Tia Cléia lá em Jacarépagua. Não precisava ter levado ela.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Com apenas uma pergunta.

Uma das coisas divertidas que estou descobrindo neste negócio de escrever para o Blog é o exercício de relembrar alguns momentos da vida, lembranças que de certa forma estão dispersas,  mas que fazem parte da nossa história.

Lembro-me de um momento no início dos anos 90 que recebemos, em uma sexta feira,  um comunicado da empresa onde cada funcionário poderia fazer uma pergunta para o Presidente Mundial , Sir Jhon Rob, e que a pergunta mais consistente seria a escolhida para representar o Brasil em um evento em Londres. Ao chegar em casa naquele dia comentei que tinha que fazer a tal pergunta e brinquei que a minha ia ser a escolhida. Na segunda-feira coloquei o "Memorando" - isto mesmo, não tinha e-mail - no malote e fui cuidar da venda que não andava lá estas coisas. Duas semanas depois,  fui convocado no escritório e me falaram que a minha pergunta tinha sido uma das dez selecionadas entre centenas de outras de diversas partes do mundo e que o prêmio era ir até Londres fazer a pergunta diretamente para o CEO Mundial da Companhia e que eu deveria viajar no sábado seguinte.


No domingo. final da manhã,  desço no Aeroporto de Heathrow em Londres  e a primeira descoberta importante que faço é que as escadas rolantes também poderiam ser esteiras, longas esteiras, como se fossem calçadas andantes. No saguão do aeroporto vejo logo uma placa com meu nome e um senhor de cabelos branco vestido de motorista, misturado aos muitos indianos, figuras comuns em Londres. Cumprimento com frases decoradas a pouco e seguimos para o carro. No início ainda tentamos nos comunicar, mas logo vimos que seria difícil e a partir dai fico observando cada rua, cada prédio com atenção redobrada. Cruzamos o Rio Tamisa e logo à direita vejo o Big Ben,  um símbolo em minhas lembranças de infância, mais alguns minutos chegamos ao Hotel Scandic Crow no Centro de Londres uma construção Vitoriana muito bonita, muito bem conservado e confortável e logo já estou no quarto. Sobre a cama uma carta de boas vindas do meu chefe inglês, Mr Roy Batmam e um convite para um cocktail no final do dia, no próprio hotel, junto com os outros nove convidados de diversas partes do mundo. Decido abrir a mala para depois descansar um pouco quando percebo o estado lastimável do meu terno, e minhas camisas, literalmente amassados, tento localizar o ramal de serviço de quarto, porém percebo que não teria como falar algo entendível para - "preciso passar minha roupa" ou " preciso de um ferro e uma tábua". Desço até a recepção e depois de alguns sinais e tentativas de comunicação sem sucesso, retorno para o quarto decidido a pensar em algo que pudesse melhorar o estado daquelas roupas. Passado mais de uma hora ouço um barulho de porta no corredor e abro a porta do meu quarto e em frente a porta de outra apartamento esta uma tábua e um ferro, tudo que eu queria naquele momento, eu de cueca mas não querendo perder tempo escoro a minha porta com o pé e me estico para pegar a solução para os meus problemas, neste momento lembro da história do Fernando Sabino  FS. H.Nu e literalmente fico gelado. Passei o restante da minha primeira tarde em Londres passando roupa.


As 18h, pontualmente me dirijo para o local do cockteil, vestido esporte como recomendado na carta, quando chego no restaurante todos os homens estão vestindo terno escuro, pensei logo que havia acabado de piorar a fama dos brasileiros, mas fui salvo ao ver o Roy Batman entrar e como eu de traje esporte e naquele momento ele era a figura mais importante do evento. Naquela noite conheci e "conversei" com um Tailandês, Japonês, Americano, Belga, Inglês, Neozelandesa, Australiano, Francês e completando o grupo uma Mexicana. Fui dormir com uma confusão mental intensa e com fome, pois a comida era muito ruim. No dia seguinte encontro novamente o grupo antes do café e novamente outra surpresa, todos estão de terno escuro e eu em um novíssimo terno cinza claro, me lembro até hoje o vendedor da Vila Romana me falando que esta era a cor do momento na Europa, xinguei muito aquele vendedor. Superado o desconforto inicial e já com o, sobretudo que quebrava um pouco a diferença de tom, ficamos aguardando o ônibus que nos levaria sede da empresa e posteriormente a um estúdio de TV de Londres onde faríamos a gravação, como ainda levaria um tempo para sairmos recebo um gentil convite do Tailandês para caminharmos até o Hide Park e durante os 15 minutos seguintes falamos bastante, mas seguramente com a cumplicidade de que não havia obrigatoriedade de nos entendermos. Foi um papo interessante.

Já na empresa, conheci a Consuelo, uma Colombiana,  Secretária do Roy Batman que passou a ser a minha guia e tradutora oficial. Após uma série de apresentações onde falaram  sobre as histórias de pesquisas de medicamentos inovadores pela empresa fomos para o estúdio, que tinha  um cenário montado tal qual o programa Roda Viva. Antes de sentar no meu lugar, a Consuelo me avisa que a minha pergunta tinha sido escolhida por Sir John, não sei se vocês perceberam, mas o cara era Sir e não Mr,  para fechar o programa, pois era a pergunta que melhor traduzia a mensagem que ele queria passar para toda a organização no mundo. O programa segue e eu me distraio até que ouço o apresentador falar Brasil e meu nome e imediatamente o microfone de teto desce por cima da minha cabeça e percebo duas câmeras fechando na minha direção, e com uma sincronização imediata começo a fazer a pergunta, logicamente em português que era simultaneamente traduzida. Muito simpaticamente ele se dirige para mim e pausadamente começa a responder, logicamente sem a devida tradução , mas eu não perco a pose e balanço a cabeça alternadamente, mesmo entendendo parcialmente. Mais três dias completaram esta viagem com outros casos que conto depois.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O menino que se esqueceu na igreja

A história abaixo é do meu amigo Antônio Torres e é o seu batismo no mundo dos blogs além de uma contribuição para o meu.  Obrigado Toninho!

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Tinha uma novidade solta no ar se espalhando mais que coqueluche: domingo ia ter cinema na casa paroquial, depois da missa das nove. Programão, para os idos de 1963, quando o menino era ainda bem pequeno. Não sabia nem atravessar a rua sozinho. “Olha para um lado, olha para o outro e só atravessa quando não vier carro nenhum. Presta bem atenção, viu!” Mesmo tendo decorado a mecânica, teve que negociar em casa um salvo conduto para ir e vir. Vai com quem? A Tina vai. Vou com ela e mais Tadeu e Fernando e os primos de Bom Jesus que estão aí de férias. Então tá bem, mas não sai de perto deles, hein!
No domingo, todo mundo com a melhor roupa, lá foi o bando para a missa das nove. Chegaram cedo porque, como se sabe, missa se espera na igreja.
Mesmo para um adulto, a basílica de N. Senhora Auxiliadora, junto ao Colégio Salesiano em Niterói, é enorme. Para um pequeno, então, um mundo. Grandes abóbadas, a nave central altíssima, janelas laterais de ambos os lados com vitrais coloridos e temáticos, diversos altares laterais, cada um com sua história para contar. Nada disso era novidade para ele. Sua família era católica, seu pai, Congregado Mariano, assistia a missa dos primeiros bancos com faixa azul e branca atravessada no peito.
Ele ia à missa todos os domingos e mesmo sem entender quase nada daquela falação toda - o senta, levanta e ajoelha - sentia um certo fascínio pela cerimônia. Os termos em latim, a grandiosidade da arquitetura, a sonoridade quase mágica que o espaço possuía e, em especial, pelas andorinhas que, enquanto transcorria a missa, não paravam um minuto sequer de voar e voltear, piando e piando sempre.
O menino passava todo o tempo da cerimônia olhando para o alto. Ora acompanhando o vôo dos pássaros, ora olhando para os vitrais iluminados à leste pelo sol ainda baixo, ou então para os altares laterais, tentando desvendar os seus mistérios. São Sebastião cravado de fechas, Santo Antonio com o Menino Jesus no colo, a via crucis de Jesus, todo ensangüentado carregando sua cruz, fustigado pelos soldados romanos. Nossa Senhora com o coração aparecendo sob o manto...
Talvez tenham sido os seus pensamentos estranhos, o seu olhar simplório sobre todas aquelas coisas tão sagradas, que tenha levado a legião de santos e anjos à vingança. Tão distraído ele estava com tudo que nem percebeu que a missa acabara e que todos foram embora. Naturalmente, excitados com a perspectiva do filme, encerrada a missa, saíram rápido para a casa paroquial e não se lembraram dele. Mesmo os do salvo conduto que tinham se responsabilizado por ele se foram. A igreja estava vazia, só restara ele ali sozinho. Ficou sentado chorando baixinho durante muito tempo até que os fiéis que chegavam para a missa seguinte o encontraram e o levaram para casa. Enquanto fungava contando aos pais o acontecido, pensava se o pior de tudo era ter perdido o filme ou ter sido totalmente esquecido por todos, inclusive pelas andorinhas que, encerrada a missa, foram fazer verão em outra serventia.

domingo, 29 de agosto de 2010

A mula sumiu.

Dias destes fui com meu sogro conhecer o lugar onde ele tinha nascido. É perto daqui, uma região rural de Rio Bonito, entrando em Rio Seco e andando uns 20 km adentro se chega a uma região conhecida como Mata. Se aquele lugar não parou no tempo andou bem devagar, ainda se vê vendinhas, capelinhas, cemitério de meia dúzia, plantações e animais pastando. Ouvi muitas histórias, mas uma muito engraçada. Vovô Mário, pai dele, lá pelos anos 30 trabalhava para o irmão conduzindo tropas de mulas com a produção da roça para trocar na venda em Rio Seco. Certa vez vinha ele com onze mulas e com a recomendação expressa do irmão para ficar de olho nas mulas e que tivesse muito cuidado para elas não desgarrarem, principalmente na volta. Ele desceu para Rio Seco com todas as mulas carregadas. Ia à frente caminhando e de vez em quando olhava para traz parava e contava as onze mulas, tava tão preocupado que contou mais de dez vezes durante a descida. Na volta, após descarregar a carga e carregar duas ou três mulas com as encomendas, montou em uma delas, amarrou uma nas outras e pegou o caminho de volta. Um pouco mais a frente resolveu contar de novo e só tinha dez, olhou em volta contou novamente e ficou desesperado pela perda de uma das mulas do irmão. Subiu pensando em o que ia falar, na bronca que iria levar e em como não tinha visto a mula fujona mesmo amarrada. Quando chegou desceu da mula e resolveu contar de novo e abriu um sorriso ao ver onze mulas novamente, sendo que desta vez contou com aquela em que esteve montado.

Minha filha vai viajar.

Minha filha vai para Madrid.

Que bom!!!
Vai filha, vá viver uns tempos lá.
Vá para Madrid, Espanha, Europa, pro Norte.
Você que é do Sul.
Não sinto medo da sua ausência temporária,
Sinto saudades antecipadas que é como se saudade real fosse, mesmo que ainda a tenha por perto por estes dias.
Madrid vai ganhar uma pessoa melhor por uns tempos, com uma visão justa das coisas e de querer bem.
Vá ganhar maturidade, amplitude, conhecimento, amigos. Um pouco mais de coisas que você já tem.
Quando a saudade apertar vamos nos falar e ver no Skype.
Se concentre no começo no que é bom e nas coisas boas que te moveram para ir.
Se sinta forte olhando para adiante.
Respire de quando em quando e de sempre em sempre, vai te ajudar, já diz sua mãe.
Aproveite os momentos sozinha para ler, observar, entender...
Aproveite os momentos acompanhada para uma boa conversa.
Aproveite as viagens para registrar suas imagens e depois compartilhar com todos nós e curta seu tempo lá que a volta é logo.

Boa viagem!!!

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Há muito tempo atrás meu pai me mostrou o texto abaixo que é de um poeta Árabe e durante anos li como filho e outros tantos tenho lido como pai, e a cada releitura e momento me faz refletir sobre esta relação tão especial entre pais e filhos.


O poema de Kalil Gibran

Vossos filhos não são vossos filhos.   
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

sábado, 21 de agosto de 2010

Eu vi.

Há muitos anos eu havia decido que não contaria o acontecido naquele dia. O fato era tão inusitado e impossivel de crer que resolvi me calar, pois, naquela época, qualquer criança que apresentava um distúrbio,  o médico da cidade dava Gardenal e diagnosticava epilepsia e isto era uma condenação para qualquer um.  Há cerca de duas semanas, minha convicção começou a mudar depois que um amigo me contou, sem saber,  uma história muito parecida com a minha, que tinha visto na internet. Pesquisei intensamente  e concluí que a história se repetia nos detalhes em que só eu vivera e portanto não podia ser  mera coincidência. A partir disto, resolvi revelar o acontecido e, afinal, vou fazer 50 anos e o mundo hoje já tem drogas melhores que o Gardenal.

Me lembro até hoje, era dia 31 de junho de 1974, uma noite muito fria de inverno, eu morava em uma pequena cidade do interior e constumávamos nos reunir em uma rua principal que era o ponto de encontro natural de todos do local. Nesta época o frio reduzia significativamente o número de pessoas na rua, já eram dez e vinte da noite e resolvi ir embora para casa, já sem interesse de ficar ali, pois a menina que eu estava paquerando já tinha ido embora. Tive que ir sozinho, pois os amigos que ficaram, moravam pra outros lados. Atravessei a praça principal com a lembrança do sorriso dela na mente, pequei o jambo que havia acabado de cair e ia subir as escadas que davam para a praça da igreja, quando ouvi um barulho de um cavalo galopando em velocidade, subi as escadas e olhei em volta e nada vi, nem gente e muito menos cavalo. Da praça dava para ver a igreja no alto de um pequeno morro, de um lado dela tinha a casa do Padre e de outro o salão Paroquial, de onde por um beco se chegava ao cemitério, atrás da igreja. Para chegar em casa, eu tinha a opção de cortar caminho por este beco ou seguir em frente até a prefeitura e virar a rua da Padaria do Garibaldi. O silêncio foi novamente interrompido, primeiro pelo sino de meia hora e depois pelo barulho do galope de cavalo e eu nada via , comecei a ficar com medo e logo fiz o sinal da cruz, já em frente à gruta de oração. Era nítido o som da ferradura batendo no paralelepido, chegando muito próximo e se afastando no outro sentido, como se tivesse correndo preso a uma determinada faixa de rua. Olhei para cima em direção ao beco e vi uma luz que se movia, quando ouvi o terceiro galope, parei, já tremendo de medo, fiz novamente o sinal da cruz, fechei e abri os olhos e lá estava ela parada na entrada do beco, imponente, emitindo uma luz amarelo ouro, muito intensa, em um feixe curto e grosso saindo do pescoço, como se fosse uma tocha de fogo. Fugi como um raio e corri até minha casa praticamente de olho fechado. Era uma MULA SEM CABEÇA.