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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A Mãe da Lucília

A Lucília escreveu para celebrar o carinho pela mãe dela.

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Minha mãe é uma peça, uma figura, uma obra de arte.  E bota arte nisso.  Faceira, faladeira, gosta de jardineira e nunca fica triste quando lembra do pierrô, da colombina, dos carnavais passados, dos namorados, das brincadeiras de infância na nostálgica Miracema.
Minha mãe mulher de fibra, não nega a raça da família Moreira.  Uma camaleoa, ou será uma leoa, sempre pronta para defender suas crias.
        Minha mãe é uma sereia.  Garbosa, cheirosa, charmosa, uma jóia rara e preciosa.
        Minha mãe é uma figura, uma mistura deliciosa de bom humor, de amor, de picardia.  Um exemplo de ousadia e coragem.
        Minha mãe é uma mulher de verdade.  Uma mistura de Amélia com Dercy Gonçalves.  Corpinho de menina, alma de criança, jeito de moleca.   Uma avó terna, carinhosa e divertida.
        Para você mamãe, o nosso carinho e a gratidão por essa lição de 88 anos de vida.
                                  
Lucília Machado

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

E DISSE NELSON RODRIGUES...


INGLEZ - CONTEMPORÂNEO DO "FENÔMENO" (um no São Cristovão outro no Olaria)

Um caso do amigo Washington "Guerreiro Matador" lá do interioooorrrrr
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IVAN, SEGUE UMA HISTÓRIA QUE NÃO ESQUEÇO....

ACORDAMOS CEDO, REUNIÃO ÀS 7:30 HS, POR QUE ? HAVERIA MAIS UMA PARTIDA ENTRE GD’S E GR’S NO FINAL DO DIA, PORÉM, ESTE DIA NÃO SERIA NORMAL....REUNIÃO INICIADA E TOME NÚMEROS DE CADA REGIONAL, ZÉ FURIOSO, POIANI ATENTO, ATAGIBA...NEM AÍ E IVAN....COMO SEMPRE SEGURO, MANHÃ SE VAI E APÓS DO ALMOÇO, CRISE REPENTINA DO ZÉ, INCOMODADO COM A VENDA DE UM ANÁLAGO DE GNRH, NOME DIFÍCIL NÉ?! DIA MAIS AINDA... DE REPENTE ZÉ PEGA I FLIP CHART E SACA: ESSA  P.......DESSA REGIONAL DO INTERIOR NÃO VENDE NADA DESTE PRODUTO???!!!! SÓ DÁ RIO E CEARÁ!!!!! MEU DIA ACABOU, FAZIA PARTE DA REGIONAL INTERIOR, SERÁ QUE AINDA O PIOR ESTAVA POR VIR......E VEIO.....FOMOS PARA O GRANDE MOMENTO DO DIA, O JOGO ENTRE GDS E GRS, EU MORTO E FRUSTRADO, DEPOIS DAQUELA COLOCAÇÃO DO ZÉ...A EQUIPE QUE EU FAZIA PARTE NÃO VENDIA NADA DAQUELE ANÁLAGO DE GENRH OU GHRN OU HGRH, ESTAVA DESNORTEADO COM O DIA E EPISÓDIO, TANTA SIGLA, TANTA BRONCA QUE DETERMINEI Á MIM MESMO, A ÚNICA SIGLA QUE VOU MEMORIZAR DEPOIS DAS 18HS É GR X GD, ESSA EU SABIA...AQUECENDO PARA ENTRAR EM CAMPIO, ENCOSTA PERTO DE MIM NA ARQUIBANCADA UM DE MEUS MELHORES COLEGAS, INGLÊS, NÃO NA ORIGEM E SIM NO NOME, PERNA MAIS BRANCA QUE PARECIA INVISÍVEL, CARA DE MAU E DIZIA.... VOU DAR PORRRRADA...DISSE À MIM MESMO É O PRÓPRIO MASSARANDUBA, MADEIRA DE DAR EM DOIDO....ATÉ AQUELE MOMENTO ESTAVA CONCENTRADO NO JOGO, INGLÊS  ME DISSE COM A VOZ DE LOCUTOR DE RODEIO....JOGUEI NO OLARIA – RJ...COMO SE FOSSE UMA GRANDE TIME, FALEI AH É?! ENTÃO VAMOS PRA CIMA DELES, COMEÇA O JOGO...MORNO ATÉ NO TEMPO....0 X 0 NO PRIMEIRO TEMPO, SEGUNDO TEMPO , FIZEMOS 1 X 0 COM MARQUINHO COMEDOR DE TORRESMO, MEIA ESQUERDA HABILIDOSO QUE FAZIA LANÇAMENTO À LA GERSON, FALTAVA 15 MINUTOS PARA TERMINAR E MAIS UMA VITÓRIA ESTAVA POR VIR...AÍ CAIU A MÁSCARA DO INGLÊS.... DEU UMA ENTRADA NO ZÉ...DONO DO TIME E MACHUCOU O BRAÇO....NADA SÉRIO DAVA PARA CONTINUAR, PORÉM, PARA AMENIZAR JÁ QUE AINDA TERÍAMOS MAIS 3 DIAS DE REUNIÃO, INGLÊS MASSARANDUDA, EX OLARIA...COM TODA EXPERIÊNCIA QUE ADQUIRIU...SIMULA QUE O BRAÇO ESTAVA DOENDO MUITO E DEIXOU O CAMPO....FICAMOS COM UM À MENOS E TOMAMOS O EMPATE, COISAS QUE ACONTECE, PORÉM, O MAIS INCRÍVEL É QUE O INGLÊS, SAIU DE CAMPO SEGURANDO O BRAÇO , ENRROLADO EM UMA CAMISA, COMO SE FOSSE UMA TIPÓIA E PARA PUXAR O SACO DO ZÉ E MANCANDO DISPAROU...NÃO DÁ MAIS PRA MIM...ORA... DIA DIFÍCIL, TARDE SINISTRA...COMO É QUE PODE O MASSARANDUBA MACHUCAR O BRAÇO E SAIR MANCANDO????? COISAS DE GD X GR, COISAS DE NOSSAS REUNIÕES INESQUECÍVEIS...COISAS DE MASSARANDUNBA, PUXA SACO E SISTEMÁTICO, VESTIA UM SAPATO DA COR DO CINTO E AINDA PINTAVA O CABELO PARA COMBINAR....PUXA SACO, MAIS MUITO HABILIDOSO....GRANDE JOGADOR DO OLÁRIA...FINAL DO DIA...DEIXAMOS COM QUE EMPATASSEM O JOGO (UM JOGADOR À MENOS)   E PERCEBEMOS QUE PRECISÁMOS VENDER MAIS....O ZÉ FAZIA COISAS INCRÍVEIS...MUDAVA O RESULTADO , SEM TOCAR NA BOLA...



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PINTANDO O SETE NO VITERBO

Os dois casos a seguir são contribuições da Lucília para o blog e ela comenta as contribuições no destaque abaixo. Obrigado e sempre que tiver uma história ou lembrar de uma não deixe de enviar.

"Estou enviando duas histórias sobre o saudoso amigo Aldemar p/o blog, uma da minha autoria e outra do coleguinha jornalista, Múcio Bezerra, uma figuraça, que tb já partiu p/o andar de cima."  Lucília

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PINTANDO O SETE NO VITERBO

São muitas as histórias curiosas envolvendo o “camarada” Aldemar e o seu bom senso. Para começar vou contar um episodio acontecido nos anos 80, quando nós morávamos na lendária Travessa Santa Rosa do Viterbo.

Um belo dia resolvemos pintar o nosso apartamento, mas como a grana, para variar, estava curta, o Carlos, meu marido na época, chamou o Roberto Athanázio, também nosso vizinho (e marido da saudosa Regina) para fazer aquela pinturazinha básica. Tinta para lá, brocha para cá, lá pelas tantas, resolvi dar uma espiada para ver como estava o andamento da coisa. Foi quando cheguei no quarto e notei algo estranho. Os habilidosos e bem-intencionados voluntários haviam pintado a parede, sem tirar o guarda-roupa do lugar, em outras palavras, passaram a tinta em volta do mesmo. Quando deparei com a cena, quase tive um ataque, e comecei a argumentar que não estava bom, etc. e tal. A dupla de pintores amadores até tentou me convencer de que o serviço estava bom, e só eu é que estava notando aquele pequeno detalhe.

Inconformada com a situação, interfonei correndo para o vizinho do aptº 806 e pedi socorro. Foi quando Aldemar chegou e ao dar de cara com o “armário emoldurado” na parede, começou o seu breve e conciso discurso, sobre as falhas no processo de pintura em questão. Após algumas horas de justificativas e hipóteses, ele conseguiu reverter o quadro e nos convenceu de que a melhor a saída era contratar um pintor profissional. Grande Aldemar...

Lucília Machado
 

CONTO DE NATAL


Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Achou que estava tudo uma beleza, porque ainda não conhecia o Aldemar. O conhecedor de todas as coisas_ eu estou me referindo ao Aldemar_ teria criticado logo o regime de trabalho. Seis dias numa semana? Um absurdo. Um mau exemplo divino na medida para justificar a exploração do homem pelo homem, desde quando Adão foi demitido, sem justa causa, do Paraíso. E ainda por que dois terços de água_ e, ainda por cima, salgada_ se o nome do planeta é Terra? Ele teria convencido o Todo-Poderoso_ e aqui eu estou me referindo a Deus_ a mudar o nome do planeta para Mar. Porque ficaria mais coerente. E também porque rimaria com o nome dele, Aldemar.
Às vezes, quando penso que fiz uma coisa perfeita, um trabalho bonito, um gol de placa, verifico logo se o Aldemar não está por perto. Se ele não estiver, faço autocrítica. Imagino como o Aldemar analisaria aquilo, vejo melhor cada ângulo da questão e...quer saber de uma coisa? O trabalho estava mesmo uma porcaria. E a Sharon Stone, por exemplo, não é tão linda assim. Aliás, ela nem sequer é bonita. Olhando bem, que mulher feia, meu Deus...
Conheci o meu amigo Aldemar na Faculdade de Comunicação na UFF. Éramos da mesma turma. Saí de lá convencido de que Melvin L. De Fleur, Marshall McLuahan e Umberto Eco podiam entender muito da teoria da comunicação. Mas não teriam coragem de discutir o assunto com o Aldemar. O meio é a mensagem? Pois sim...
Imagino que Deus estava descansando naquele sétimo dia, quando olhou o futuro e viu o Aldemar. Aí resolveu criar o Antônio, outro colega da turma da faculdade. Antônio é o crítico do Aldemar.
Antônio morava no Fonseca, mas fez o impossível para se mudar para um condomínio de luxo, em Pendotiba. Não por uma questão de status. Mas para ficar perto e discordar do Aldemar:
_ Feliz natal!
_ Feliz por quê?
_ Eu provo!
_ Prove...


*(Múcio Bezerra)

domingo, 17 de outubro de 2010

PÉ DE QUE


Ouvia um debate no rádio esta semana, onde o tema central era a escolha de cinco coisas importantes que você deveria escolher para levar para uma caverna se tivesse que ficar confinado lá, deve ser ainda reflexo dos mineiros do Chile. O apresentador lançou outro desafio que envolvia novas escolhas: quais os cinco lugares mais interessantes para viajar, um ouvinte já queria saber quais os cinco filmes mais importantes da história do cinema, um outro as cinco pessoas mais influentes em todos os tempos e lá se foi à discussão envolvendo escolher as melhores ou mais importantes coisas, lugares, pessoas para cada um.
Resolvi, na solidão do engarrafamento diário, escolher as cinco melhores não sei o que para mim. Entre uma freada e outra decidi que ia escolher os cincos melhores “PÉ DE QUE” que passaram pela minha vida. “PÉ DE QUE” é uma árvore, não uma árvore qualquer, tirada lá do meio de uma floresta, mas uma árvore com personalidade própria, com histórias, com nome, sobrenome e lugar sabido de existência.
Logo vi a primeira dificuldade na minha escolha: não poderia colocar em uma ordem de preferência, simplesmente não seria possível e me recusava a isto. Segundo, cinco seria muito pouco e desta forma eu poderia excluir árvores queridas da minha vida, uma tremenda injustiça. Decidi então, mudar as regras do desafio:

  1. Eu ia colocar em uma ordem aleatória decidida por um sorteio.
  2. Não seriam apenas cinco, mas sim dez PÉS DE QUE”.

Vamos lá:


·              O PÉ DE ABIL: Da varanda alta da casa da minha Vó dava para ver ele. Bastava um pulo no muro, pendurar no galho e já estávamos montados nele. Cada um de nós logo se acomodava. Eram doces, amarelos, da espécie dos redondos, com sua cola que grudava nos lábios e servia de brincadeira para nós. Não falhava um ano, não era fruta de cair sozinha, também não dávamos muito tempo para ficar velho de maduro. Da rua alguns passavam e pediam, depois de comer muito levávamos para casa, pois todos queriam.



·              OS PÉS DE CAJA: eram dois, um na casa da minha Vó e o outro lá em casa – pé bão de subir, a fruta dava em pencas, era muito farto, o tronco era macio, dava para escrever com a faca, lá escrevi o nome da minha primeira namorada, se não derrubaram o pé ele deve estar lá ainda, pois escrevi fundo, bem lá no alto para ninguém ver. O da casa da minha Vó a fruta dava pequena mas muito doce o lá de casa era grande e mais azedinho. Era muito bom comer cajá de vez com sal. Quando eu queria enxergar longe subia nele até o último galho.






·            O PÉ DE JABUTICABA:  o melhor era o do NATAL, coloquei aqui o link de um outro texto que escrevi aqui que vale conferir para ver a importância deste PÉ DE QUE. Não deixe de ver:
·              O PÉ DE LARANJA LIMA: Debaixo dele, no meu quintal, aprendi a descascar laranjas, sonhei em ser grande, chorei, pensei, me escondi, brinquei muito, criei galinhas, falei sozinho, me arranhei nos espinhos. Era bonito ver ele florescer e virar fruto.

·              O PÉ DE PINHA: Engraçado, não era farto como os outros e nem tão grande, mas era simbólico, era o PÉ DE PINHA da minha Tia, era intocável, como não dava muito fruto era cobiçado por todos, mas não tínhamos coragem de comer, era dela, às vezes ela dividia com gente, mas era área proibida e isto para criança era sempre um desafio. Na verdade ajudávamos a proteger aquele PÉ DE PINHA afinal a Tia Santa sempre nos garantia outros tipos de agrado que compensavam. Hoje quando passo em um sinal e vejo aqueles caras vendendo PINHA compro uma caixa e como sozinho, deve ser trauma.







·              O PÉ DE MANGA: era uma velha senhora, a melhor sombra da minha vida, grande verde, difícil de subir. Uma manga espada tão doce quanto desejada. Nos finais de tarde que “vinha chuva” ficávamos sentados esperando o “vento que vinha antes” fazer o trabalho dele e soltá-las do galho e quando ouvíamos o menor barulho corríamos em uma disputa que dava para todos. Comer aquelas mangas era se lambuzar, se lambuzar,...






·              O PÉ DE AMORA: este não era de subir, ficava no quintal da Dona Aurora, ou Orora para nós e para o papagaio dela. Era do lado da cerca de bambu, não precisávamos nem pular para o quinta l dela, pois só o tronco era lá a fruta mesmo estava do lado de cá, na casa da minha Vó. Na verdade o que dava sentido era ficar ali comendo amora catada e vigiando a gaiola com o alçapão para pegar passarinho, preso com a gaióla na goiabeira e ouvindo as besteiras do papagaio da Dona Orara.




·              OS PÉS DE GOIADA: são dois, o primeiro foi criado junto com o PÉ DE LARANJA LIMA, um passava sobre o outro, vi ele crescer, dava goiaba com tanta fartura que fazíamos doce, goiabada e as galinhas comiam quando caiam de maduras. Nele subia para pegar as laranjas que não alcançava do chão, algumas vezes soltei pipa de cima dele em outras me serviu de refugio das brigas com minha mãe. O outro é o da casa onde moro hoje, bem na frente dela. Quando cheguei aqui, não sabia que projeto de construção ia fazer, mas decidi logo que seria qualquer um que preserva-se o PÉ DE GOIABA, pois isto não só manteria vivas as minhas lembranças como me permitiria vivê-las novamente.

sábado, 9 de outubro de 2010

Cafifa

Um aula sobre Cafifa, do Antonio Torres, que aproveita para fazer voar a pipa dos Cariocas.

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Um dia desses, minha filha, do alto dos seus 22 anos e das lonjuras de Toulouse, na França, onde está estudando, saiu com essa: Pai, porque você não me ensinou a soltar pipa?  Nem me lembro o que respondi ou se respondi, mas a questão ficou no ar.

Primeiro porque, morando em Niterói, ela devia ter dito cafifa e não pipa. Pipa é coisa de Carioca, mas como lá é que são geradas as mídias que nos abastecem diariamente de violência e desinformação, a cafifa dançou.

Eu nunca a ensinaria a soltar pipa. A cafifa deles, que se chama laçadeira é muito padrão, quase quadrada, com um bico pequeno embaixo e uma rabiola (hunn, rabiola...). Tem até um efeito estético legal, principalmente se há muitas no ar, mas como diversão é fraquinha. É muito menos versátil. A rabiola está sempre embolando, aliás, sua função primordial é dar equilíbrio e controle à pipa, o que se opõe por completo ao espírito rebelde e impulsivo das cafifas sem rabiola. Existencialismo puro!

O grande barato de soltar cafifa é a competição, a cruza, quando as linhas com cerol (vidro moído e cola) tentam cortar umas às outras. E não é o cerol ou a linha que faz a diferença. É o tipo da cafifa associado à técnica da cruza que dá muitas cores à brincadeira. Nós aqui em Niterói temos a arraia, morcego, pião, baratinha e o estilão, que é uma laçadeira mais esperta e a única que tem rabada e não rabiola. Cada uma delas tem suas características, seu estilo e são ágeis como o diabo. Os meninos vão se especializando em uma delas e com o tempo adquirem um domínio completo de suas manobras, obtendo ótimos resultados.

São várias técnicas usadas na cruza: Entrar por cima: Difícil e às vezes suicida, mas com um bom dibique (rápido para baixo) para dar velocidade e peso à linha, pode-se lograr sucesso. Entrar por baixo: Quem está antes do oponente em relação à direção do vento, tem tendência natural por esta entrada na cruza. O sucesso normalmente é garantido quando se consegue que a linha do oponente corra mais devagar que a sua, fazendo com que o seu desgaste seja maior. A menos, é claro, que o seu oponente, que entrou por cima, tenha outros planos.

Estão aí envolvidas questões complexas de química e física que os meninos dominam na prática, mas não tem muito tempo para aprofundar teoricamente, visto que os horários da escola, normalmente são os melhores em termos de vento e disponibilidade de tempo.

A minha infância foi preenchida em boa parte pelo universo das cafifas. Fazer, colocar no alto, cruzar, cortar, voar, dar dibique, rabilinhe, correr atrás, moer vidro, fazer e passar cerol, olhar o tempo e o vento: Uma paixão! Porquê, então, não passei essa paixão para os meus filhos? Porque nestes trinta e poucos anos que separam nossas infâncias, as coisas deixaram um pouco de serem próximas para serem tele (longe, em televisão, telefone...) e tornaram-se mais virtuais que reais. Nós até tentamos. Fizemos juntos uma cafifa, um pião, que tinha o seu nome escrito, mas quando o colocamos no alto, destreinados, deixamos que se prendesse num mamoeiro.

E ele ficou lá, balançando ao sabor do vento, aquele fevereiro inteiro.

sábado, 25 de setembro de 2010

Melinda

Este caso me contaram como verdadeiro, disseram que até no jornal saiu.


Rita estava na Rua do Matoso,  esperava impacientemente um Táxi. Os óculos escuros escondiam os sinais de choro. Em uma das mãos tinha um pequeno buquê de flores e na outra uma bolsa. No chão apoiada em suas pernas uma caixa,  destas de Tv de Plasma. Finalmente  conseguiu ser percebida por um taxista, que vendo a dificuldade  dela desceu do carro e prontamente colocou no porta malas do Santana a caixa da TV.   Rita se acomodou no banco traseiro.
-Moço vamos para Jacarepaguá.
-A Sra prefere ir pela Grajaú ou pela Linha Amarela? Perguntou o motorista.
- Tenho pressa. Qual é o caminho mais rápido:
- Certamente a Grajaú, pois a Linha Amarela esta muito lenta hoje.
- Pode ser. Falou ela como se nada mais tivesse importância e novamente as lágrimas retornaram.




Paulo Cesar logo percebeu que ela não estava bem e frequentemente a observava pelo retrovisor. Quando chegaram a Jacarepaguá ela não disse nada e ele muito esperto, começou a rodar sem também perguntar o destino correto, certo de que a corrida seria boa, ou melhor, o golpe do dia seria bom. Rita olhava pela janela abstraída por pensamentos que lhe davam um ar de tristeza profunda. De repente ela se assusta com os gritos do PC.
- Perdeu Dona, perdeu.
Eles estavam em um local ermo e desconhecido para ela.
- Deixa a bolsa no banco, sai do carro e anda sem olhar para traz.
- Preciso pegar a caixa, preciso pegar a caixa.
- Se manda Dona.
Já apontando a arma na cara dela.
Nervosa ela abriu a porta e saiu andando em direção contrária enquanto ele se afastava.

Dois  quilômetros a frente parou o carro e revistou a bolsa ficando com o pouco dinheiro, celular e os cartões, o restante jogou no matagal e fugiu em sentido a Linha Amarela onde se juntaria a centenas de outros carros e se perderia no movimento intenso. Tinha sido mais fácil do que pensava e agora ia chegar com novidades em casa para a patroa e as crianças. Um barulho de sirene o deixou assustado, mas logo viu que era uma ambulância. Isto o fez decidir ir direto para casa, afinal estava ansioso para mostrar o presente que havia "comprado". Pouco tempo depois, já em casa,  com um buquê de flores na mão ,que de forma romântica deu para a mulher e foi logo contando a novidade da compras da Tv de Plasma. Pediu uma cerveja bem gelada enquanto ia tomar um banho e mandou as crianças irem abrindo o presente.. Já debaixo do chuveiro ouviu um grito:  - pai tem um gato morto dentro da  caixa.

Longe dali Rita chegava em casa e entre soluços e choro lamentava.
Eu só queria enterrar a Melinda no  quintal casa da Tia Cléia lá em Jacarépagua. Não precisava ter levado ela.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Com apenas uma pergunta.

Uma das coisas divertidas que estou descobrindo neste negócio de escrever para o Blog é o exercício de relembrar alguns momentos da vida, lembranças que de certa forma estão dispersas,  mas que fazem parte da nossa história.

Lembro-me de um momento no início dos anos 90 que recebemos, em uma sexta feira,  um comunicado da empresa onde cada funcionário poderia fazer uma pergunta para o Presidente Mundial , Sir Jhon Rob, e que a pergunta mais consistente seria a escolhida para representar o Brasil em um evento em Londres. Ao chegar em casa naquele dia comentei que tinha que fazer a tal pergunta e brinquei que a minha ia ser a escolhida. Na segunda-feira coloquei o "Memorando" - isto mesmo, não tinha e-mail - no malote e fui cuidar da venda que não andava lá estas coisas. Duas semanas depois,  fui convocado no escritório e me falaram que a minha pergunta tinha sido uma das dez selecionadas entre centenas de outras de diversas partes do mundo e que o prêmio era ir até Londres fazer a pergunta diretamente para o CEO Mundial da Companhia e que eu deveria viajar no sábado seguinte.


No domingo. final da manhã,  desço no Aeroporto de Heathrow em Londres  e a primeira descoberta importante que faço é que as escadas rolantes também poderiam ser esteiras, longas esteiras, como se fossem calçadas andantes. No saguão do aeroporto vejo logo uma placa com meu nome e um senhor de cabelos branco vestido de motorista, misturado aos muitos indianos, figuras comuns em Londres. Cumprimento com frases decoradas a pouco e seguimos para o carro. No início ainda tentamos nos comunicar, mas logo vimos que seria difícil e a partir dai fico observando cada rua, cada prédio com atenção redobrada. Cruzamos o Rio Tamisa e logo à direita vejo o Big Ben,  um símbolo em minhas lembranças de infância, mais alguns minutos chegamos ao Hotel Scandic Crow no Centro de Londres uma construção Vitoriana muito bonita, muito bem conservado e confortável e logo já estou no quarto. Sobre a cama uma carta de boas vindas do meu chefe inglês, Mr Roy Batmam e um convite para um cocktail no final do dia, no próprio hotel, junto com os outros nove convidados de diversas partes do mundo. Decido abrir a mala para depois descansar um pouco quando percebo o estado lastimável do meu terno, e minhas camisas, literalmente amassados, tento localizar o ramal de serviço de quarto, porém percebo que não teria como falar algo entendível para - "preciso passar minha roupa" ou " preciso de um ferro e uma tábua". Desço até a recepção e depois de alguns sinais e tentativas de comunicação sem sucesso, retorno para o quarto decidido a pensar em algo que pudesse melhorar o estado daquelas roupas. Passado mais de uma hora ouço um barulho de porta no corredor e abro a porta do meu quarto e em frente a porta de outra apartamento esta uma tábua e um ferro, tudo que eu queria naquele momento, eu de cueca mas não querendo perder tempo escoro a minha porta com o pé e me estico para pegar a solução para os meus problemas, neste momento lembro da história do Fernando Sabino  FS. H.Nu e literalmente fico gelado. Passei o restante da minha primeira tarde em Londres passando roupa.


As 18h, pontualmente me dirijo para o local do cockteil, vestido esporte como recomendado na carta, quando chego no restaurante todos os homens estão vestindo terno escuro, pensei logo que havia acabado de piorar a fama dos brasileiros, mas fui salvo ao ver o Roy Batman entrar e como eu de traje esporte e naquele momento ele era a figura mais importante do evento. Naquela noite conheci e "conversei" com um Tailandês, Japonês, Americano, Belga, Inglês, Neozelandesa, Australiano, Francês e completando o grupo uma Mexicana. Fui dormir com uma confusão mental intensa e com fome, pois a comida era muito ruim. No dia seguinte encontro novamente o grupo antes do café e novamente outra surpresa, todos estão de terno escuro e eu em um novíssimo terno cinza claro, me lembro até hoje o vendedor da Vila Romana me falando que esta era a cor do momento na Europa, xinguei muito aquele vendedor. Superado o desconforto inicial e já com o, sobretudo que quebrava um pouco a diferença de tom, ficamos aguardando o ônibus que nos levaria sede da empresa e posteriormente a um estúdio de TV de Londres onde faríamos a gravação, como ainda levaria um tempo para sairmos recebo um gentil convite do Tailandês para caminharmos até o Hide Park e durante os 15 minutos seguintes falamos bastante, mas seguramente com a cumplicidade de que não havia obrigatoriedade de nos entendermos. Foi um papo interessante.

Já na empresa, conheci a Consuelo, uma Colombiana,  Secretária do Roy Batman que passou a ser a minha guia e tradutora oficial. Após uma série de apresentações onde falaram  sobre as histórias de pesquisas de medicamentos inovadores pela empresa fomos para o estúdio, que tinha  um cenário montado tal qual o programa Roda Viva. Antes de sentar no meu lugar, a Consuelo me avisa que a minha pergunta tinha sido escolhida por Sir John, não sei se vocês perceberam, mas o cara era Sir e não Mr,  para fechar o programa, pois era a pergunta que melhor traduzia a mensagem que ele queria passar para toda a organização no mundo. O programa segue e eu me distraio até que ouço o apresentador falar Brasil e meu nome e imediatamente o microfone de teto desce por cima da minha cabeça e percebo duas câmeras fechando na minha direção, e com uma sincronização imediata começo a fazer a pergunta, logicamente em português que era simultaneamente traduzida. Muito simpaticamente ele se dirige para mim e pausadamente começa a responder, logicamente sem a devida tradução , mas eu não perco a pose e balanço a cabeça alternadamente, mesmo entendendo parcialmente. Mais três dias completaram esta viagem com outros casos que conto depois.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O menino que se esqueceu na igreja

A história abaixo é do meu amigo Antônio Torres e é o seu batismo no mundo dos blogs além de uma contribuição para o meu.  Obrigado Toninho!

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Tinha uma novidade solta no ar se espalhando mais que coqueluche: domingo ia ter cinema na casa paroquial, depois da missa das nove. Programão, para os idos de 1963, quando o menino era ainda bem pequeno. Não sabia nem atravessar a rua sozinho. “Olha para um lado, olha para o outro e só atravessa quando não vier carro nenhum. Presta bem atenção, viu!” Mesmo tendo decorado a mecânica, teve que negociar em casa um salvo conduto para ir e vir. Vai com quem? A Tina vai. Vou com ela e mais Tadeu e Fernando e os primos de Bom Jesus que estão aí de férias. Então tá bem, mas não sai de perto deles, hein!
No domingo, todo mundo com a melhor roupa, lá foi o bando para a missa das nove. Chegaram cedo porque, como se sabe, missa se espera na igreja.
Mesmo para um adulto, a basílica de N. Senhora Auxiliadora, junto ao Colégio Salesiano em Niterói, é enorme. Para um pequeno, então, um mundo. Grandes abóbadas, a nave central altíssima, janelas laterais de ambos os lados com vitrais coloridos e temáticos, diversos altares laterais, cada um com sua história para contar. Nada disso era novidade para ele. Sua família era católica, seu pai, Congregado Mariano, assistia a missa dos primeiros bancos com faixa azul e branca atravessada no peito.
Ele ia à missa todos os domingos e mesmo sem entender quase nada daquela falação toda - o senta, levanta e ajoelha - sentia um certo fascínio pela cerimônia. Os termos em latim, a grandiosidade da arquitetura, a sonoridade quase mágica que o espaço possuía e, em especial, pelas andorinhas que, enquanto transcorria a missa, não paravam um minuto sequer de voar e voltear, piando e piando sempre.
O menino passava todo o tempo da cerimônia olhando para o alto. Ora acompanhando o vôo dos pássaros, ora olhando para os vitrais iluminados à leste pelo sol ainda baixo, ou então para os altares laterais, tentando desvendar os seus mistérios. São Sebastião cravado de fechas, Santo Antonio com o Menino Jesus no colo, a via crucis de Jesus, todo ensangüentado carregando sua cruz, fustigado pelos soldados romanos. Nossa Senhora com o coração aparecendo sob o manto...
Talvez tenham sido os seus pensamentos estranhos, o seu olhar simplório sobre todas aquelas coisas tão sagradas, que tenha levado a legião de santos e anjos à vingança. Tão distraído ele estava com tudo que nem percebeu que a missa acabara e que todos foram embora. Naturalmente, excitados com a perspectiva do filme, encerrada a missa, saíram rápido para a casa paroquial e não se lembraram dele. Mesmo os do salvo conduto que tinham se responsabilizado por ele se foram. A igreja estava vazia, só restara ele ali sozinho. Ficou sentado chorando baixinho durante muito tempo até que os fiéis que chegavam para a missa seguinte o encontraram e o levaram para casa. Enquanto fungava contando aos pais o acontecido, pensava se o pior de tudo era ter perdido o filme ou ter sido totalmente esquecido por todos, inclusive pelas andorinhas que, encerrada a missa, foram fazer verão em outra serventia.

domingo, 29 de agosto de 2010

A mula sumiu.

Dias destes fui com meu sogro conhecer o lugar onde ele tinha nascido. É perto daqui, uma região rural de Rio Bonito, entrando em Rio Seco e andando uns 20 km adentro se chega a uma região conhecida como Mata. Se aquele lugar não parou no tempo andou bem devagar, ainda se vê vendinhas, capelinhas, cemitério de meia dúzia, plantações e animais pastando. Ouvi muitas histórias, mas uma muito engraçada. Vovô Mário, pai dele, lá pelos anos 30 trabalhava para o irmão conduzindo tropas de mulas com a produção da roça para trocar na venda em Rio Seco. Certa vez vinha ele com onze mulas e com a recomendação expressa do irmão para ficar de olho nas mulas e que tivesse muito cuidado para elas não desgarrarem, principalmente na volta. Ele desceu para Rio Seco com todas as mulas carregadas. Ia à frente caminhando e de vez em quando olhava para traz parava e contava as onze mulas, tava tão preocupado que contou mais de dez vezes durante a descida. Na volta, após descarregar a carga e carregar duas ou três mulas com as encomendas, montou em uma delas, amarrou uma nas outras e pegou o caminho de volta. Um pouco mais a frente resolveu contar de novo e só tinha dez, olhou em volta contou novamente e ficou desesperado pela perda de uma das mulas do irmão. Subiu pensando em o que ia falar, na bronca que iria levar e em como não tinha visto a mula fujona mesmo amarrada. Quando chegou desceu da mula e resolveu contar de novo e abriu um sorriso ao ver onze mulas novamente, sendo que desta vez contou com aquela em que esteve montado.

Minha filha vai viajar.

Minha filha vai para Madrid.

Que bom!!!
Vai filha, vá viver uns tempos lá.
Vá para Madrid, Espanha, Europa, pro Norte.
Você que é do Sul.
Não sinto medo da sua ausência temporária,
Sinto saudades antecipadas que é como se saudade real fosse, mesmo que ainda a tenha por perto por estes dias.
Madrid vai ganhar uma pessoa melhor por uns tempos, com uma visão justa das coisas e de querer bem.
Vá ganhar maturidade, amplitude, conhecimento, amigos. Um pouco mais de coisas que você já tem.
Quando a saudade apertar vamos nos falar e ver no Skype.
Se concentre no começo no que é bom e nas coisas boas que te moveram para ir.
Se sinta forte olhando para adiante.
Respire de quando em quando e de sempre em sempre, vai te ajudar, já diz sua mãe.
Aproveite os momentos sozinha para ler, observar, entender...
Aproveite os momentos acompanhada para uma boa conversa.
Aproveite as viagens para registrar suas imagens e depois compartilhar com todos nós e curta seu tempo lá que a volta é logo.

Boa viagem!!!

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Há muito tempo atrás meu pai me mostrou o texto abaixo que é de um poeta Árabe e durante anos li como filho e outros tantos tenho lido como pai, e a cada releitura e momento me faz refletir sobre esta relação tão especial entre pais e filhos.


O poema de Kalil Gibran

Vossos filhos não são vossos filhos.   
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

sábado, 21 de agosto de 2010

Eu vi.

Há muitos anos eu havia decido que não contaria o acontecido naquele dia. O fato era tão inusitado e impossivel de crer que resolvi me calar, pois, naquela época, qualquer criança que apresentava um distúrbio,  o médico da cidade dava Gardenal e diagnosticava epilepsia e isto era uma condenação para qualquer um.  Há cerca de duas semanas, minha convicção começou a mudar depois que um amigo me contou, sem saber,  uma história muito parecida com a minha, que tinha visto na internet. Pesquisei intensamente  e concluí que a história se repetia nos detalhes em que só eu vivera e portanto não podia ser  mera coincidência. A partir disto, resolvi revelar o acontecido e, afinal, vou fazer 50 anos e o mundo hoje já tem drogas melhores que o Gardenal.

Me lembro até hoje, era dia 31 de junho de 1974, uma noite muito fria de inverno, eu morava em uma pequena cidade do interior e constumávamos nos reunir em uma rua principal que era o ponto de encontro natural de todos do local. Nesta época o frio reduzia significativamente o número de pessoas na rua, já eram dez e vinte da noite e resolvi ir embora para casa, já sem interesse de ficar ali, pois a menina que eu estava paquerando já tinha ido embora. Tive que ir sozinho, pois os amigos que ficaram, moravam pra outros lados. Atravessei a praça principal com a lembrança do sorriso dela na mente, pequei o jambo que havia acabado de cair e ia subir as escadas que davam para a praça da igreja, quando ouvi um barulho de um cavalo galopando em velocidade, subi as escadas e olhei em volta e nada vi, nem gente e muito menos cavalo. Da praça dava para ver a igreja no alto de um pequeno morro, de um lado dela tinha a casa do Padre e de outro o salão Paroquial, de onde por um beco se chegava ao cemitério, atrás da igreja. Para chegar em casa, eu tinha a opção de cortar caminho por este beco ou seguir em frente até a prefeitura e virar a rua da Padaria do Garibaldi. O silêncio foi novamente interrompido, primeiro pelo sino de meia hora e depois pelo barulho do galope de cavalo e eu nada via , comecei a ficar com medo e logo fiz o sinal da cruz, já em frente à gruta de oração. Era nítido o som da ferradura batendo no paralelepido, chegando muito próximo e se afastando no outro sentido, como se tivesse correndo preso a uma determinada faixa de rua. Olhei para cima em direção ao beco e vi uma luz que se movia, quando ouvi o terceiro galope, parei, já tremendo de medo, fiz novamente o sinal da cruz, fechei e abri os olhos e lá estava ela parada na entrada do beco, imponente, emitindo uma luz amarelo ouro, muito intensa, em um feixe curto e grosso saindo do pescoço, como se fosse uma tocha de fogo. Fugi como um raio e corri até minha casa praticamente de olho fechado. Era uma MULA SEM CABEÇA.




quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Quintal do Natal

A casa do Natal era do outro lado da rua em frente à casa de minha vó. Era uma casa de frente longa, calçada alta e acinzentada, como as casas de antigamente. As janelas e portas cumpridas, com vidros coloridos davam alguma cor naquele lugar. Debruçado na janela ou sentado na porta, Natal passava boa parte do dia, devia ter uns 48 anos, mas para nós parecia um senhor gordo e velho, era simpático com a gente, mas sem muitas
palavras. Religiosamente, após o almoço, fechava as janelas e a porta e ia tirar um sono, tal qual um velho urso, que na verdade era como o víamos. Sempre esperávamos por este momento, pois depois de retornar do colégio precisávamos arrumar algo para fazer e fugir da obrigação de estudar ainda mais e o quintal do Natal era o lugar perfeito, um verdadeiro pomar; tinha jenipapo, manga, goiaba, amora, jabuticaba,... enfim fruta e diversão para o ano inteiro, era grande o suficiente para atravessar de uma rua a outra e o melhor, não tinha cachorro. Num daqueles dias era "época" de jabuticaba e mais uma vez pulamos o muro da frente e sorrateiramente fomos para o quintal, o pé estava perfeito, todo carregado e colorido de verde e preto, sentamos em um toco que tinha debaixo e começamos a comer e conversar baixinho para não acordar os donos da casa. Era tanta jabuticaba no pé que não dava para subir, mas também nem precisava, mas o Toinzinho, ligeiro que só, subiu no pé de goiaba ao lado e por cima passou para a jabuticabeira e de lá jogava o caroço na gente e falava que as lá de cima eram mel puro. Avisamos a ele para falar baixo que se nao ia acordar o Natal ou a Yolanda ele ria e jogava mais caroço. A mulher do Natal, a Yolanda, era uma morena muito bonita e muito mais nova do que ele. Ela ainda não sabia que nós três éramos apaixonados por ela, que era igual a Gabriela da novela. De repente o instinto, que só os moleques tem, nos fez ouvir o barulho de porta e em segundos já estávamos no fundo do quintal, próximo a nossa passagem secreta na cerca de bambu. Já do lado de fora, pela greta da cerca, vimos a Yolanda descendo as escadas da varanda da cozinha, de pés descalços, em um vestido florido curtinho com as coxas de fora, quando chegou no final da escada dava para ver o gande facão que tinha nas mãos. Nosso riso se misturou com o medo do fim trágico do Toizinho, ela lentamente caminhou em direção ao pé de goiaba e ao chegar se abaixou junto a uma touceira de capim limão e arrancou com o facão um chumaço de capim, voltou e deixou o capim e o facão em um grande banco de madeira, que ficava logo ali, e começou a recolher a roupa do varal, enquanto cantava a música do Roberto Carlos que vinha do rádio na cozinha. Custamos a sair daquele estado congelado enquanto o Toizinho tentava se parecer um calango estático. Foi então que corri como nunca  dando a volta pela rua e indo até a frente da casa. Comecei a bater palma como se estivesse chamando alguém e depois de muito insistir ouvi a voz dela pedindo para o Natal atender a porta que tinha alguém batendo, mas dele só se ouvia o ronco alto no quarto da frente. Finalmente ouvi o rádio ser desligado e ela gritando que já ia. Corri para casa da minha vó e me escondi atrás do portão.


Sorte do Toizinho que a Yolanda não gostava de jabuticaba e o Natal tinha um sono profundo.
Aquela foi a ultima vez que comi jabuticaba no quintal do Natal.



sábado, 14 de agosto de 2010

Ô MANO!!!

Ô mano! Era a expressão mais comum que ele usava. Servia para brincar, servia para saudar, servia para brigar. Era Dentista por circunstância da vida, vendedor por instinto e Diretor por conseqüência. Palmeirense, apaixonado por futebol, que usava para figurar suas falas. Contava casos como se tivesse vivido, na verdade sempre foi um personagem. Usava as crises como oportunidade ou como oportunismo, neste caso as criava. Lembro dele falando – “ô mano, quando estiver dependendo da solução de alguém coloque o bode na sala e jogue as chaves fora, pois quando o bode começar a feder a solução aparece” e ele tinha o sangue frio para fazer isto, perdia algumas ganhava muitas. Naquela época mandava mais que o Presidente da empresa, e é daquela época uma das muitas histórias interessantes do Zé.



Final dos anos 90, a empresa ia muita bem, e freqüentemente fazíamos reuniões de revisão de estratégias e plano orçamentário, eram umas 30 pessoas entre Gerentes Regionais, Distritais e pessoas de Matriz. Quase sempre em um hotel em Atibaia e até hoje desconfio que o que importava naquele hotel não eram as boas salas de reunião e sim o Campo de Futebol, gramado perfeito, todo marcado com cal e o Palmeiras haviam feito pré-temporada ali. Se o campo era o diferencial o mais importante daqueles quatro ou cinco dias eram as peladas do final do dia. Nada podia atrasar para não prejudicar o campeonato entre os Regionais e os Distritais, se no dia seguinte tivéssemos que começar a trabalhar mais cedo ninguém tinha duvidas, mesmo os que não gostavam de futebol. Tudo com o apoio do Zé, afinal ele era o dono da reunião, dono da bola e o dono da camisa 10 do time dos Regionais, mas uma coisa tem que admitir o “excomungado” era bom de bola apesar de já estar uma BOLA. As partidas eram precedidas de muita provocação, na entrada em campo tinha foguetório, que o puxa saco do Vitório, dono do hotel, oferecia. O clima era quente e sempre dava um jogo duro. Para controlar tudo isto tinha o Ézio, um Distrital, boa gente, sistemático, um cara pouco flexível no dia a dia e que naqueles dias incorporava o Juiz, cabelo baixinho, repartido do lado, bigode curto aparado, uniforme preto, cronômetro, apito e muita autoridade. Ele tinha o cuidado de olhar as travas das chuteiras e por vezes reclamava de um uniforme ou outro mal arrumado.



Lá do outro lado do campo o Zé já gritava – “o Mano, vamos parar com esta viadagem e começar logo esta merda”. Depois de alguns minutos, já no segundo tempo, quatro gols, jogo empatado, o Alma, um atacante do time deles, magrinho, ligeiro e malaco, se joga dentro da área e o Ézio da pênalti. É um bate boca sem fim, queríamos matar o Ézio e o desgraçado não se aperta, pega a bola e coloca na marca do pênalti. Para minha surpresa o Zé esta calado, mas era só olhar para ele e ver que o surto é iminente. Enquanto a discussão continua e o Alma se prepara para bater o penalti, o Zé anda firme em direção a bola e da um bico nela e a manda pro brejo que tem do lado do campo e transtornado grita – “ninguém vai bater pênalti aqui...” – mais 1 minuto de silêncio depois daquele bico, todo mundo surpreso, menos o Ézio, ele calmamente pega a outra bola, coloca na marca do pênalti novamente, puxa o cartão vermelho e aponta o outro dedo para fora expulsando o Mano... a surpresa foi tão grande que ele não ousou discutir ou contrariar o Ézio e caminhou de cabeça baixa para o vestiário, sorte do Ézio que no final ganhamos o jogo.

Niterói, 15 de agosto de 2010.