Um aula sobre Cafifa, do Antonio Torres, que aproveita para fazer voar a pipa dos Cariocas.
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Um dia desses, minha filha, do alto dos seus 22 anos e das lonjuras de Toulouse, na França, onde está estudando, saiu com essa: Pai, porque você não me ensinou a soltar pipa? Nem me lembro o que respondi ou se respondi, mas a questão ficou no ar.
Primeiro porque, morando em Niterói, ela devia ter dito cafifa e não pipa. Pipa é coisa de Carioca, mas como lá é que são geradas as mídias que nos abastecem diariamente de violência e desinformação, a cafifa dançou.
Eu nunca a ensinaria a soltar pipa. A cafifa deles, que se chama laçadeira é muito padrão, quase quadrada, com um bico pequeno embaixo e uma rabiola (hunn, rabiola...). Tem até um efeito estético legal, principalmente se há muitas no ar, mas como diversão é fraquinha. É muito menos versátil. A rabiola está sempre embolando, aliás, sua função primordial é dar equilíbrio e controle à pipa, o que se opõe por completo ao espírito rebelde e impulsivo das cafifas sem rabiola. Existencialismo puro!
O grande barato de soltar cafifa é a competição, a cruza, quando as linhas com cerol (vidro moído e cola) tentam cortar umas às outras. E não é o cerol ou a linha que faz a diferença. É o tipo da cafifa associado à técnica da cruza que dá muitas cores à brincadeira. Nós aqui em Niterói temos a arraia, morcego, pião, baratinha e o estilão, que é uma laçadeira mais esperta e a única que tem rabada e não rabiola. Cada uma delas tem suas características, seu estilo e são ágeis como o diabo. Os meninos vão se especializando em uma delas e com o tempo adquirem um domínio completo de suas manobras, obtendo ótimos resultados.
São várias técnicas usadas na cruza: Entrar por cima: Difícil e às vezes suicida, mas com um bom dibique (rápido para baixo) para dar velocidade e peso à linha, pode-se lograr sucesso. Entrar por baixo: Quem está antes do oponente em relação à direção do vento, tem tendência natural por esta entrada na cruza. O sucesso normalmente é garantido quando se consegue que a linha do oponente corra mais devagar que a sua, fazendo com que o seu desgaste seja maior. A menos, é claro, que o seu oponente, que entrou por cima, tenha outros planos.
Estão aí envolvidas questões complexas de química e física que os meninos dominam na prática, mas não tem muito tempo para aprofundar teoricamente, visto que os horários da escola, normalmente são os melhores em termos de vento e disponibilidade de tempo.
A minha infância foi preenchida em boa parte pelo universo das cafifas. Fazer, colocar no alto, cruzar, cortar, voar, dar dibique, rabilinhe, correr atrás, moer vidro, fazer e passar cerol, olhar o tempo e o vento: Uma paixão! Porquê, então, não passei essa paixão para os meus filhos? Porque nestes trinta e poucos anos que separam nossas infâncias, as coisas deixaram um pouco de serem próximas para serem tele (longe, em televisão, telefone...) e tornaram-se mais virtuais que reais. Nós até tentamos. Fizemos juntos uma cafifa, um pião, que tinha o seu nome escrito, mas quando o colocamos no alto, destreinados, deixamos que se prendesse num mamoeiro.
E ele ficou lá, balançando ao sabor do vento, aquele fevereiro inteiro.